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Contabilidade e Crise: Lições do Caso Banco Master


Contabilidade e Crise: Lições do Caso Banco Master

Crises bancárias não começam no dia da liquidação. Elas começam muito antes, na deterioração silenciosa da liquidez, do capital e, principalmente, da qualidade da informação.

O caso Banco Master, com liquidação extrajudicial decretada e posterior acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), reforça uma verdade incômoda: a contabilidade não é burocracia. Ela é infraestrutura de estabilidade.

Quando falha ou quando não reflete com tempestividade a substância econômica o impacto ultrapassa a instituição e atinge poupadores, empresas, credores e a confiança no sistema financeiro.

Crises não surgem do nada: o problema da informação

Em episódios dessa natureza, surgem elementos recorrentes:

  • Tensões de liquidez

  • Estrutura de funding fragilizada

  • Descasamentos entre ativos e passivos

  • Questionamentos sobre calibragem regulatória

Mas há um núcleo comum: qualidade da informação financeira.

Bancos operam essencialmente com riscos futuros — crédito, mercado e liquidez. Portanto, a contabilidade não “fotografa” apenas o passado. Ela precisa traduzir, com prudência, o risco embutido nos ativos e obrigações.

Quando essa tradução não é fiel, o mercado precifica errado.E quando a correção vem, ela é abrupta.

O tripé da prevenção: registro, mensuração e transparência

Crises costumam revelar falhas em três pontos centrais:

1. Registro sem substância

Operações complexas exigem rastreabilidade e lastro verificável. Fragilidade documental amplia conflitos sobre direitos e obrigações.

2. Mensuração desconectada do risco econômico

Reconhecer um ativo não basta. É preciso mensurá-lo considerando risco, liquidez e recuperabilidade — especialmente em provisões e marcações a mercado.

3. Divulgação insuficiente

Transparência não é excesso de notas explicativas. É permitir que investidores entendam premissas, incertezas e materialidade dos números.

Contabilidade, controles internos e auditoria precisam atuar de forma integrada.Sem esse alinhamento, o risco cresce no escuro.

Perdas esperadas: reconhecer antes que vire insolvência

O ponto mais sensível em crises de crédito é a tempestividade.

Modelos de perdas esperadas e políticas robustas de provisão existem justamente para obrigar a instituição a reconhecer deterioração antes que ela se torne irreversível.

Isso não elimina risco bancário — mas reduz o risco invisível.

E risco invisível é o mais perigoso.


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Disclosure como disciplina de mercado

O Pilar 3 de Basileia trata a transparência como instrumento de disciplina de mercado.Sem disclosure adequado, investidores não conseguem diferenciar risco saudável de risco excessivo.

O resultado é conhecido:

  • precificação distorcida

  • fuga abrupta de funding

  • crises de confiança

Mais opacidade significa menos capacidade de reação preventiva.

O que o caso ensina

A contabilidade não é um escudo mágico contra insolvência.O risco é inerente ao sistema bancário.

Mas contabilidade de alta qualidade:

  • Reduz surpresas

  • Melhora a ação preventiva

  • Diminui o custo social e jurídico

  • Protege depositantes e investidores

  • Fortalece a confiança sistêmica

Em um país com alta complexidade regulatória e forte dependência do crédito bancário, discutir contabilidade como infraestrutura de estabilidade não é academicismo.

É agenda econômica. É proteção social. É governança aplicada. Nos acompanhe também nas mídias sociais:


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